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quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Quase dois

Você foi a melhor parte de um ano desesperadamente assustador. Você foi o primeiro de, espero, não muitos, mas não foi o último. Você foi um amor indecente, verídico, impensado, corrompido. Você foi a alma de projetos e ideias e sonhos, você foi a essência de cheiros e gostos e moldes. Você, amor, foi pesadelo e depois o ombro pra reconfortar. Foi o peito que me acolheu nas noites frias e o pé que esquentou o meu. Você foi a barba mal feita que arranhou meu rosto e meu corpo nos momentos que eram nossos, e que hoje não são mais. Você... Você foi dor e foi cura, foi ferida e cicatrização. Você era a última coisa que eu via na sexta à noite e a primeira que eu enxergava quando abria os olhos sábado de manhã. Nunca quis nada além de você, porque você sempre bastou. Desse teu jeito torto e egoísta e dulcíssimo. Sempre tão honesto e desonesto e incompreensível. Você foi grande parte dos meus problemas e a maioria das minhas soluções. Foi a paciência, a compreensão, o afago, a manha. Você foi o certo e o errado, minha eterna contradição. Você foi meu melhor amigo. O melhor amigo que era namorado e marido e amante e encaixe. Você foi meses de briga, e de mais amor ainda. Meses de medo de te perder, de sorrisos sem motivo nenhum. Você é saudade. Você é choro, calúnia, desgraça. É pesadelo e não mais reconforto. É sonho que faz questão de me visitar toda noite, é uma dor no peito sem explicação. Você, hoje, é um vento que passa e me dá frio e arrepio. Você é um estranho que me olha e não me reconhece, não me cumprimenta, não me oferece mais sorrisos. Você é mágoa e lembranças e memórias vívidas. É inúmeras fotos, sensações, calafrios. Você é um amor acabado, mas inacabado, daqueles que a gente tem que jogar tudo fora porque cada coisa lembra você, e tem que se esforçar ao máximo porque é difícil esquecer. Você é o amor que a gente se convence de que está morto, mas que soca a nossa cara quando aparece sem querer no mesmo restaurante que você, revira a barriga, te tira a fome e te faz ir embora. Você é pingo de mistura de sentimentos e memórias que fica guardado sempre compactado dentro do peito, esquecido, mas não some de jeito nenhum. Eu sou o pingo que não sumo de jeito nenhum pra você. Entendo como deve ser difícil seguir em frente vendo tudo o que eu estou fazendo, observando fotos novas minhas, reatando o relacionamento com os velhos sentimentos que só sabem incomodar. Não entendo, no entanto, a tua ignorância. A tua fuga, a tua covardia. Não entendo porque pra ser feliz não pode mais falar comigo. Se a infantilidade é tanta, só tenho a falar: você foi e você é criança. Você foi quase dois anos de uma absurda alegria, de choros intermináveis, de discussões calorosas e recepções marcantes. Você foi a minha paz, a minha maturidade, o meu encontro comigo mesma. Foi meu piadista, meu intelectual, minha vida. Minha vontade de levantar durante a semana pra ela passar voando pra te encontrar. Você foi coisa ruim, mas muito mais coisa boa. Foi amor de madrugada, em cada canto da cidade. Foi amor a qualquer hora, por qualquer coisa. Você é a melhor das minhas lembranças, a melhor parte do meu passado, o ponto mais interessante das minhas histórias. Meu pior equívoco e meu maior acerto, meu mais valioso investimento. Você era feliz e não sabia, tinha tudo e não via. Eu era feliz e não sabia, nunca soube, até hoje não entendo direito, mas eu era a pessoa mais feliz do mundo. Você me fez a pessoa mais feliz do mundo. Você foi felicidade, cumplicidade, êxtase. Você é saudade. Você foi amor.

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Desconhecido

A novidade tornou-se velharia, e as pessoas têm essa mania tosca de trocar o velho pelo novo, mesmo sabendo que panela velha é que faz comida boa. Mesmo sabendo que a próxima novidade vai ser empolgante - momentaneamente -, mas que o desconhecido tem muitos pontos fracos. Intimidade, brincadeiras, apelidos, carícias, medos, vícios, compreensão, colo, choro, entendimento, facilidade, coração aberto, e amor - claro -, não se encontra no desconhecido. Quando o brilho ficar fosco, você vai deitar na cama querendo o abraço de uma pessoa só, e te garanto que não é do desconhecido. Você vai sentir falta da mão te procurando do outro lado da cama no meio da noite no escuro, te encontrando afastado e chegando perto pra envolver tuas costas com os braços. Esse tipo de calor não dá pra substituir. Você vai se encontrar sábado a noite em casa, meio sem rumo e chão, pensando no que fazer. Seu celular vai tocar e inconscientemente você vai achar que ela, mesmo sabendo que não é, e você vai dar um suspiro de alívio. Alívio por não ser ela, alívio porque você não queria que fosse ela, não queria trazer tudo à tona. Seus amigos vão te convencer a ir pra alguma festa, sem dificuldade nenhuma, e você já vai de carona com o intuito de beber muito e esquecer de tudo. Pode beijar uma, duas, ou quantas bocas quiser. Elas serão pequenas ou grandes demais para a sua, engraçadas e diferentes. Não é tão bom. A novidade faz parecer melhor do que realmente é. Você a afasta por um segundo e olha nos seus olhos, não verdes, procurando alguma coisa, que também não sabe o quê. Ela vai sorrir e o sorriso vai ser branco e bonito e não como você tava acostumado. Por um segundo bate um desânimo, mas você joga fora, ignora. Cinco da manhã você chega em casa, com aquela sensação de que ta faltando alguma coisa. Tira toda a roupa, as lentes, e deita na cama sentindo um frio absurdo que nenhuma coberta consegue cessar. Um frio que vem de dentro pra fora e esmaga o peito, e você aceita que é só a bebida te dando mal estar. Tem coisas que uma noite de festa não consegue te dar, tem faltas que desconhecidos não conseguem suprir. Um domingo vazio, de vídeo game e um almoço clichê. Sempre uma incógnita tua semana, mas também teus apoios e escapes. A vida te deu um tapa e mandou você aguentar e fingir que nada aconteceu. Você é fiel demais a isso. Leva em frente como se tivesse e quisesse aceitar a nova realidade, com lembranças afogadas no canto do cérebro. Você não vai voltar atrás porque se acha melhor do que isso. E você é. Atrás não tem mais nada, você está certo em escolher seguir em frente. Mas a opção de ir sozinho ou acompanhado é só sua.

sábado, 1 de setembro de 2012

Venci(da)

O silêncio ocupou o espaço que era dos risos e das conversas. Qualquer lugar era o lugar perfeito pra olhar desde que não fosse um para o outro. Dois corpos que não sabiam mais preencher o mesmo espaço e não estavam na mesma sintonia, mas insistiam em tentar. Tentar, não sei pra quê, porque na verdade era um tentando e o outro apenas levando em frente; ou não levando a lugar nenhum. Os olhos se encontravam, mas não se achavam, não se entendiam. As palavras não faziam mais sentido e por isso eram poupadas. Levamos muito tempo numa brincadeira meio sem razão e meio sem entender nada, jogando fora e depois catando de volta. A perda não é fácil pra ninguém. Nós sabíamos, mas não entendíamos. Nunca faltou amor. Não faltou atração, nem cumplicidade. Somente morreu a palpitação no coração e o frio na barriga e a sensação de conquista. Mas nós não tínhamos morrido, apenas não sabíamos mais nos reinventar, e desistir parecia mais fácil. Mais fácil pra você, pelo menos.
Você queria desistir e eu queria insistir. Uma briga que só teria um fim e a gente sabia. Mas nenhuma guerra é de verdade se um dos lados não insistir, não é? E lá fui eu, espada numa mão e escudo na outra, tentar buscar o que perdemos. A verdade é que eu já tinha jogado meu escudo fora há muito tempo, e minha espada não tinha mais ponta. Eu lutei por força do hábito. Eu lutei por acomodação. Lutei porque não quis aceitar que tinha que sair da nossa rotina e do nosso castelo, mesmo vendo ele desmoronar a minha volta. Eu lutei porque era a única coisa que eu sabia fazer ainda, e de tanto ter feito, tornou-se automático. Minha reação era lutar e tentar manter unido o que não tinha mais ligação. Mas se me perguntassem, eu não saberia explicar porque estava na guerra. Eu olhava pra você e implorava um pouquinho de ajuda, mas você jogou a toalha, rendendo-se. Não sei porque gastei as últimas palavras sabendo que eram em vão. Não sei porque tentei continuar em algo que eu nem sabia mais se era o que eu queria. Não sei porque eu hesitei em vez de aceitar a derrota. Força do hábito. Amor, talvez.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Velho amor

Não é "se cuida". Não é desligar o telefone e ir dormir. Não é ficar duas horas falando besteira pra amanhã esquecer. É "me cuida". Desliga o telefone e vem dormir aqui em casa. Me aquece, me abraça com esses teus braços enormes, me aperta contra teu corpo. Dorme comigo pra acordar comigo e lembrar de mim o resto do dia. Não vá embora. Não vá embora de manhã, de tarde ou de noite. Trago café na cama, peço um almoço bem diferente e capricho na janta pra nós dois. Mas não me larga sozinha na vida de novo. Não volta pra essa tua rotina maluca e esbaforida que insistes em ter. Eu sei que é loucura, mas meu coração ainda dança frenético no peito e as borboletas reaparecem - achei que não existiam mais - na barriga quando te vejo. E é errado. Mas essa erupção que você causa e domina e assiste é incontrolável. Não se brinca num vulcão adormecido.
Eu choro porque eu deveria sentir isso por outra pessoa. Não que não sinta nada, é mais forte e concreto do que tudo isso, mas sinto falta da instabilidade. Sinto falta do cheiro e do gosto. Das brigas. Dos beijos. De verdade e mentira e oposição misturados em nós. Eu sinto sua falta.
E cada passo que eu dou pra frente, acabo endireitando o caminho de volta a você e ando em círculos. Te procurando, me endoidecendo. Nos amando. E sei que a regra é não esquecer o primeiro amor, e que o plano é aparecer de vez em quando pra sempre ser lembrado, mas deixa eu te falar uma coisa. Deixa eu te falar que esse plano funciona muito melhor do que você imagina. E a dor é grande e barulhenta e começa a ecoar desesperadamente dentro de mim, dando consequência nos outros. Você é o distúrbio que eu nunca consegui vencer, mas também nunca tentei de verdade. Porque te manter nas lembranças é muito melhor do que não te manter de jeito nenhum.
Não é que eu te queira de volta ou que eu tenha te perdoado pelos seus erros. Te quero longe e ainda sofro pensando em tudo o que você fez. As pessoas tem que entender isso. Não controlo meu coração, ou as borboletas da barriga, ou a vontade de te abraçar toda vez que te vejo. Mas isso não significa que te quero de volta na minha vida. Até desejo, mas não quero. Você é apenas a saudade que ficou aqui dentro e de vez em quando bate na minha porta pedindo colo. Eu dou colo. Nunca neguei. Mas de manhã cedinho te mando de volta pra casa, sem arrependimentos, sem dúvidas.
Porque todos esses anos eu tive certeza e você insegurança. Eu não sabia te dizer não, você não sabia se comprometer. Eu tentei, você fugiu. E eu continuei ali, esperando você aprender com seus erros e voltar correndo. Eu que aprendi com os meus, por isso hoje não te quero por perto. É por isso que hoje te digo não. E foi com os meus acertos que você aprendeu a reconhecer seus erros. Tarde demais pra se comprometer, não? Irônico.
Começar um texto te falando de saudade e de te querer por perto e terminar falando de mágoa e de não te querer realmente por perto é a maior prova de que você ficou marcado. Negativa e positivamente. Minha contradição, meu vício. Mas você é só isso: uma noite sem dormir, duas horas no telefone, um choro de saudade. Um passado que parece sempre recente.

segunda-feira, 19 de março de 2012

O Amor

É quando você não espera mais a ligação daquela pessoa, porque sabe que vai ter que acabar ligando primeiro se depender dela. É quando buquê de flores e ursinhos de pelúcia são o bastante para colocar a briga embaixo do tapete por alguns dias, mas não acabar com ela. É quando um fim de semana juntos não compensa mais a semana separados, e em todas as vírgulas dá vontade de colocar um ponto final. Existe muito em comum, mas as diferenças tornaram-se maiores e gritantes e absurdas. E elas transbordam por cada orifício de quem tenta dizer o contrário.
É quando você tem que perguntar se o outro te ama. É quando a dúvida é maior que a certeza e vira desconfiança. É quando você chora em todas as brigas por mais frequentes que sejam, porque o medo de perder, mas a vontade de separação são inversamente proporcionais.
É quando você não é levado a sério quando pede consideração, por mais que o outro saiba o quanto errou. É quando você liga pra alguém para conversar e fazer tudo ficar bem, e passa horas tentando fazer ela rir e entender, mesmo quando quem errou foi ela. Ela não gasta mais de cinco minutos para que as coisas se ajeitem. É quando você fala que está tudo bem, querendo que ela insista um pouco mais em você, e a pessoa só finge que acredita e deixa tudo por ali. No meio do caminho, inacabado. Tentando tapar um buraco que só vai ficar mais fundo se não for consertado de vez.
É quando o medo de o tempo estar passando rápido demais e de as coisas estarem ficando sérias te impede de aproveitar por completo. É quando uma pessoa só embarca em um barquinho que foi feito para dois. Falta alguém. Falta alguma coisa. É quando você percebe que está entrando sozinho em uma luta.
Porque o amor, o temido amor, é um campo de batalhas. Não é sempre flores e dengos e cheiros. O amor é turbulento. E ele foi feito com molde para dois, com lugar para dois, com convite para dois. O amor não sabe ser sozinho, não sabe ser egoísta. Ele vai te derrubar muitas vezes, pra ver se você levanta de novo e continua insistindo nele. Ele é uma eterna luta. De dois. Lutar sozinho pelo amor não é certo... Deixa de ser amor.
É quando você não sabe se está acompanhado no barco ou se a pessoa vai pular fora a qualquer hora. É quando você quer dar teu coração, mas não te oferecem nada em troca. E mesmo assim você o entrega.
Porque o amor... É quando você não tem mais motivos pra lutar, pra insistir, pra persistir. É quando o lado negativo às vezes parece maior e mais pesado e quando não há esperanças nenhuma. O amor é quando sua energia esgotou, sua paciência foi embora, suas razões para amar acabaram. Mas você continua lá, firme, lutando por ele.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Fortaleza


Tenho essa mania chata de me apegar demais às pessoas. Sofro com despedidas, choro com términos, dramatizo cada vírgula dos meus relacionamentos. Intensifico tudo, levando a sério todas as reticências e acentos e pontos finais. Entrego corpo e alma. E meu grande erro é crer que as pessoas entregam os seus também.
Nessa brincadeira de não saber brincar, eu te assusto. Falo de futuro, de passado. Fortaleço o presente. Mas minha fortaleza é tão forte que você tem medo de não conseguir mais sair. Tem medo de que os muros sejam altos demais ou impossíveis de derrubar. Seu equívoco é achar que faço isso para te prender, para nos prender. Mas ao me fortalecer ao extremo, é para não deixar ninguém entrar. É para não bombardearem minha vida com - mais - mentiras, traições, ilusões. É para não deixarem mais marcas como essas que eu já tenho e você conhece bem. E então continuo protegendo o que ainda resta da sanidade, da calmaria, da confiança. Se você quiser sair, é só pedir. Abro a porta da frente e te deixo passar.
Essa sua claustrofobia em relação ao amor me afasta. Magoa. Porque não estou te pedindo em casamento, e um longo relacionamento não significa que é para sempre. Para de ter medo disso. Foca nas partes boas, enquanto são boas. Foca em mim, enquanto estou aqui. E se for para casar, deixa ser. Serei uma boa mãe, uma boa esposa. Você um bom pai, bom marido. E se não for, a gente vai descobrir. Querer adivinhar o futuro não faz bem, melhor parar com isso. Fica protegido aqui dentro dos meus muros, deixa eu cuidar de você, proteger quem eu amo. Proteja-me também, estando do meu lado e ocupando todo esse espaço, todo esse vazio, e assim não deixando mais ninguém entrar. Porque não me interessa mais ninguém. Quando fores embora e deixar de novo o buraco aqui - mais profundo -, acabará entrando outra pessoa. Minha defesa é forte, mas não invencível. Porque eu sinto, eu amo, eu desejo. E acabo acreditando nas mentiras dos outros, esperando que algum deles possa invadir minha fortaleza, acabar com esse medo que eu também sinto e ocupar de vez o cargo que não é permanente de ninguém, mas é temporariamente seu.
Se teus anseios te impedem de ficar, então vá. Mas vá ciente de que a oportunidade é uma só. Se desistir, é para sempre. Se passar pelos muros afora, não volte. Não quero visitas, não ligo para seus arrependimentos. Procuro amor, uma pessoa inteira e não pela metade. Vá ser pela metade em outros lugares, seja inteiro aqui. O portão é serventia da casa, mas garanto que o serviço dentro dela é bem melhor do que lá fora. Mas não dá mais para ficar em cima do muro.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Estranho idealizado

Mais uma vez, o escuro do meu quarto parece doer mais os olhos do que a própria luz. Ele faz funcionar um cantinho do cérebro que fica esquecido durante o dia. O escuro me lembra melancolia. O escuro me traz melancolia. E eu, melancólica, encaro desesperada o teto que parece breu, apagado e descolorido. Minha vontade é de sair dali, de não lembrar o que eu sei que está por vir; mas braços e pernas criam desejos próprios e não movem um centímetro. Lágrimas involuntárias correm e escorrem e molham meu corpo rígido. Eu não te amo mais. Eu nunca amei. É tudo invenção dessa parte da minha mente que insiste em criar coisas. Você é uma coisa criada por ela. O que eu sinto foi criado por ela. Parte suja e indesejada. Parte de mim que insiste em aparecer nessas noites mais escuras e sombrias, aproveitando-se da carência, da solidão, do coração ferido. Igualzinho a você, exatamente como você faz. Criação imunda da minha cabeça. Você não passa disso. Um infeliz que suga a alma dos outros, a felicidade. Sugou a minha e não se deu por satisfeito ainda. Continua com suas visitas noturnas, na madrugada. Seja numa ligação ou num pensamento. Você está sempre lá. Meus olhos focam tempo demais o preto do meu quarto, a ponto de criar formas e rostos e dores. Você é dor, é vício, é ilusão. Você é nojo, repulsa e desilusão. Você dói, você machuca. É a parte mais maldosa da minha cabeça, o pedaço em carne viva que nunca se recupera. É a doença sem cura e a vida sem realmente viver. Você é meu lado ruim, meu lado perverso e nojento. Acha que tem poder, que tem domínio. Mas você não tem nada. Porque você, sem mim, não é absolutamente nada. O menino que eu conheci, era realmente apenas um menino. Depois de tanto tempo, continuava um menino. Não crescia, não mudava. A magia negra que me rondava nunca foi sua. Minha mente insana fez você assim. Fez uma imagem sua, uma esperança, uma personagem de você. E eu me apaixonei por ela. Pelo sujo nojento safado ordinário vigarista moleque pervertido assanhado cachorro extremista sem vergonha imaturo selvagem repugnante babaca e vagabundo que eu idealizei em você. Não foi por você. Porque, sabe, se eu te colocasse numa multidão de homens, perderia-te. Você se misturaria à todos os outros, por ser igual, por ser descartável e de caráter tão confundível ao de qualquer outro homem. Você, comigo, na minha cabeça, é muito. É meu sonho, meu pesadelo, minha contradição. É meu mar profundo - e escuro - onde pretendo me afogar. É vida, é morte, é uma linha tênue. Mas, sem mim? Sem mim você não é nada.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Erros

Eu errei. Errei sim. Errei uma, duas, três vezes. Talvez mais. Erros perdoáveis, erros gravíssimos, erros que nem contam. Ninguém sabe deles. Uma ou outra pessoa talvez, as que erraram comigo. Elas sabem. Elas entendem. Algumas delas querem repetir o erro e tentam me convencer a isso. Não conseguem. Não costumo errar duas vezes. Pelo menos, não com a mesma pessoa. É inevitável. Algumas vezes foram inevitáveis. Mais forte do que eu. Outras eu nem me recordo direito. Mas são coisas que você não vai descobrir. Não por mim. Quem sabe você veja no meu olhar, talvez eu entregue tudo por ali. Se você vê, fingiu até hoje que não. Mas se espera confissões, está perdendo tempo. Porque eu errei. Mas meus erros são só meus, continuarão assim. E, meu amor, não garanto que vou parar. Porque, como eu disse, às vezes é mais forte do que eu. Me consume, me possui. Não me arrependo. Não é exatamente arrependimento. Está mais para uma dó, uma vontade de não errar mais, por não ser justo com você. Mas isso não me impediu de continuar errando. Não foram muitos equívocos, apenas alguns. Que você não perdoaria. Que você jamais entenderia. Se soubesse deles, meu amor, deixarias de ser meu amor. Acabaria aquilo que temos, apesar de ser tão lindo, tão mágico. Não quero ser um monstro para você. Não para você. Porque, sim, talvez eu seja um monstro. Mas não me julgue. Nem sequer me questione sobre o que estou falando aqui. Da minha boca não sairá uma palavra. Mas não me odeie. Não me odeie porque eu te amo, te admiro. A verdade dói, meu amor. E você não esta acostumado a isso. Fica como está. Não seja ingênuo de insistir nessa bobagem. Insista em nós. Insista sempre em nós.

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Para alguém entender

Vem cá, senta aqui. Eu sei que a vergonha é grande, eu também tenho, mas não sei o que você faz que me seduz a te falar essas besteiras. Seduz-me a te seduzir, te manipular, jogar com teu corpo novinho. Esquece a vergonha, ignora, a tranca em algum lugar. Mas não joga a chave fora, não. Porque tem que ter vergonha, é até bom. Mas com os outros, não comigo. Vai, ignora-a. Escuta-me, me entende. Obedece, amor. Senta aqui do meu lado. Chega mais perto. Sente o cheiro do meu perfume na minha nuca, repara no brinco que eu coloquei. Chega mais perto, até seu nariz roçar na lateral da minha mandíbula, até que sua voz seja um sussurro no meu ouvido. Passa sua mão ao meu redor, num meio-abraço, com a sensação de abraço inteiro. Beija meu ombro nu, ou beija o imaginando assim. Beija meu pescoço, minha orelha. Sinta-me, deixa eu te sentir também. Deixa-me provar do veneno que me fez vir até aqui falar baixinho meus desejos. Tira essa blusa, me deixa lamber teu peito, morder tua barriga. Não, não me pede para parar. Eu sei que não posso, mas eu quero. Deixa-me querer, deixa eu me atrever. Pega-me no colo, me encosta em qualquer lugar. Muito rápido? Ou devagar...? Digo, quer que eu volte pro início? Voltamos então, meu amor. Mas olha pra mim. Encara meu olhar, não foge desse abismo. Deixa ele te consumir, te puxar, te tentar... Isso mesmo, chega mais perto e esquece a insegurança. Porque se você não sabe, eu sei por nós, sou segura por você. Temos tanto tempo, mas temos que ser rápidos. Porque eu tenho muito pra fazer, outros jogos pra jogar... Então para com essa marra, segura meu cabelo e beija minha boca, me deixa louca, tanto quanto estou enlouquecendo com essa distancia entre nós.

Ou fica aí, parado, amedrontado. Vendo-me voltar para os braços de quem eu nunca deveria ter entrado.

domingo, 11 de setembro de 2011

Aquela época

Não queria que você ligasse. Não queria mesmo. Não queria te ver, não queria te ouvir, não queria te sentir. Arrepiava só de pensar nisso. Um arrepio ruim. Pelo menos, eu queria que fosse ruim.
Lutei tanto pra conseguir isso. Esse pavor de você, te evitar. Enganei-me, o máximo que pude, acreditando que tinha finalmente conseguido isso. Mas o meu pavor era de nunca mais receber ligações suas ou de passarmos um dia um pelo outro, seja onde for, e você não me reconhecer. Não lembrar tudo – e tanto – que vivemos. Juntos. Ah, pavor. Terror. Aterrorizava minhas noites.
O telefone tocava. Não era você. Nunca era. Nunca mais foi. Mas costumava ser, sabe, naquela época.
Época que eu reclamei tanto de ti. Mas tanto, tanto. Mal sabia eu que as poucas ligações suas que eu recebia seriam o bastante hoje, até demais, quem sabe seriam tudo. Porque você costumava ser tudo. Pra mim, pra outras. Elas nem sei hoje, mas quanto a mim... Ainda suspiro, revoltada, teu nome.
Não tenho mais mensagens suas – não que eu tivesse tomado coragem de apagá-las, mas quando troquei de aparelho elas sumiram, feliz ou infelizmente, automaticamente -, não tenho mais notícias ou qualquer detalhe da tua (nova) vida sem mim. Se não mudou de perfume, ainda lembro-me dele. Do cheiro. Se tua voz não ficou ainda mais grossa, posso quase senti-la sussurrar novamente na minha nuca. Sabe, igual àquela época.
Maldita época. Tudo parecia difícil, e era difícil mesmo, mas só o comecinho disso. Deixamos a pedrinha ir rolando e virar uma enorme bola de neve. E eu, com esse tamanho todo, não consigo sair dessa bola.
Quantas vezes achei que ainda amava. Talvez ainda amasse. Talvez não. Quanta ingenuidade. Odiava-te com todo o coração, mas era só você me abraçar que ficava tudo bem. Porque eu só precisava de você.
Que clichê. Que meloso e ridículo. Eu posso ter amado. Eu amei, definitivamente. Mas foi isso. Foi, já passou. O que eu sinto hoje é vontade de sentar e conversar com você por horas e dias, sobre tudo o que aconteceu, os motivos, as intenções, os sentimentos. Conversar tanto até a ponta da língua ficar dormente e a mente confusa. Sabe? Como fazíamos... Naquela época.
Liga, aparece, me manda uma mensagem. Deixa eu te ver. Deixa-me saber como você ta. Curiosidade, sabe? Não some, como costumava fazer. Não erra, como costumava fazer. Faz diferente. Diferente de tudo daquela época. Eu entendo. Eu espero. Eu supero quando você resolver ir embora de novo. Igualzinho como eu fazia. Naquela época.

terça-feira, 29 de março de 2011

Sem indiretas


Disseram-me uma vez que é fácil seguir em frente, que o difícil é não olhar para trás; que espiar o passado é sofrer duas vezes. Que eu deveria parar de idealizar o amor em vez de encontrá-lo, porque às vezes ele é só uma escolha e não sempre um raio que vai cair do nada. Falaram-me que o amor... Que talvez o amor verdadeiro seja só uma decisão - decisão de correr algum risco com alguém.
Cheguei à conclusão de que para ter qualquer mínima chance no futuro - seja no amor, seja comigo mesma -, eu tinha que perdoar, esquecer, apagar... Eu tinha que fazer as pazes com o passado. E precisava de tempo pra isso, muito tempo. Precisava que fossem pacientes comigo, enquanto eu batalhava internamente procurando o remédio pra sarar todas as ferias que estavam dentro de mim. Bem, ninguém havia demonstrado tal paciência até você. Mas não, não quero falar sobre você. Pelo menos não agora... E espero que nunca queira. Porque, sabe, meus textos são sempre falando daqueles que me magoaram e deixaram saudade. Não quero isso pra nós. Se for pra sentir saudade, que seja apenas por alguns dias e eu te encontre segurando um buquê de flores no nosso reencontro. Não preciso colocar você em palavras, não quero. Guardo isso para aqueles que estão ou pretendo deixar no meu passado. Quanto a você... Está perfeito no meu presente.
Sempre soube da verdade, ela é tão óbvia. Ela está escancarada, fazendo com que eu lembre todo dia de que a realidade é que entreguei meu coração há muito tempo e nunca o recuperei de volta. E não importa quantos dias, meses ou anos se passem diante dos meus olhos, a certeza de que será sempre assim já se mudou e instalou no meu peito. No lugar onde costumava morar meu coração. Talvez seja esse o raciocínio mais lógico para entender o porque de não conseguir me entregar a mais ninguém. O porque de ter deixado tantos corações partidos após perder o meu.
Não sei se os fins justificam os meios, ou os meios justificam os fins. Eu sei que o fim nunca é bom; caso fosse, seria o começo. E que eu não preciso ter trinta, quarenta ou cinquenta anos para ser madura; muitas vezes as lições de vida trazem mais maturidade do que os anos.
Por último, só queria registrar uma dica para todos os homens: "Quando achar uma mulher boa demais para você, case com ela."

quarta-feira, 23 de março de 2011

Dica

Se querer fosse poder, eu poderia muito. Esqueceria amores que sei, infelizmente, que são inesquecíveis. Que vão arder sempre no meu peito, por menor tensão que causem, cada vez que eu ouvir seus nomes. Se eu pudesse... Eu gostaria mais de pessoas que gostam muito de mim, e menos daquelas que não gostam tanto assim. Porque, sabe, depois de algum tempo nós chegamos a conclusão de que sofrer é desgastante. Que pode ser um pequeno desafio, uma forma de nos fazer continuar no jogo só para conseguir aquilo que não nos é dado nas mãos, mas mesmo assim, às vezes - na maioria das vezes -, não vale nem um pouco a pena. O ser humano tem essa mania irritante de não gostar do fácil, de querer sempre o difícil. Mas...
Mulheres: Se ele não gosta de você, se fica com outras na sua frente, se diz que não está "pronto" para um relacionamento, se fica com você e com outras ao mesmo tempo, se está claramente te enganando, iludindo, mentindo, fingindo, prometendo e não cumprindo, ou não tão claramente assim... Bem, ABRA MÃO. Deixe-o ir! Pare de correr atrás porque tem gente que é caso perdido. E hoje em dia, a maioria dos homens são. É o seguinte: "Se você ama alguém, deixe-o livre. Se ele voltar, é seu. Se não, nunca foi." Resumindo... Não. Sofra. Por. Quem. Não. Gosta. De Você. Tenha amor próprio.
E por mais diferente que seja de qualquer outra coisa que eu já escrevi, hoje cheguei a conclusão de que perdi muito tempo com essa bobagem de sofrimento. Olhando pra trás, depois de algum caminho andado, vi que cometi erros que agora parecem inaceitáveis pra mim. Mas é bom. Rir do que passou significa que eu superei. E superar é a linha final, um passo da felicidade. Mas até chegar essa linha, cada um faz sua estrada, toma suas direções e escolhas, faz o que bem entende. Eu só queria registrar: se ainda estão fazendo suas escolhas, se ainda tem a chance de optar, então não escolham o sofrimento, a humilhação, porque nenhum homem merece isso. Pensem nisso.
"Ninguém merece tuas lágrimas, e quem as merece não te fará chorar."

sexta-feira, 18 de março de 2011

Ironias do amor


Se eu ainda amo?
Ah, querido, não me restam dúvidas quanto a isso. Eu amo sim, e muito. Nunca soube demonstrar, falar, nem sequer explicar meu amor em palavras. Mas você o via só de me olhar, só de sentir meu corpo arrepiar com teu toque. Se eu ainda amo o arrepio que você causava? Sim, é claro que sim. Ele não é um porcento sequer das infinitas lembranças que tenho com você, de você, de nós. E é aí que está todo o meu amor.
Eu amo cada lembrança nossa, todos os erros que cometemos, todos os acertos inclusive. Amo quando você me olhava demoradamente e minha pele queimava em cada centímetro que seus olhos alcançavam. Eu amo, ainda amo, as memórias que guardo - os momentos, as brigas, a pausa para o amor. Nunca deixei de amar essas coisas, nunca deixarei.
Eu amo "nós". Eu nos amo. Juntos, separados, sempre infalíveis. Não só amo, mas admiro, o que se passava entre a gente. Aquele amor todo. Era amor, eu sei que era. Um amor diferente. Que não teve outro igual, nem terá. Amo termos sido tão excêntricos. Sinto por não termos sido nada mais concreto do que isso.
Mas qual parte é novidade para você? Repeti o que você já sabe, em resposta à sua pergunta. Sua pergunta tão óbvia, tão ridiculamente óbvia. Pois é claro que eu amo. Amor é o que não falta aqui. Eu amo o meu passado, eu amo o nosso passado. Eu ainda amo TUDO que pertenceu a nós dois, eu ainda amo NÓS DOIS.
Eu apenas não amo mais você.

quarta-feira, 9 de março de 2011

E se não é amor...


Novamente, lá estava você me fuzilando com aqueles olhos de cor indefinida. Olhando-me de cima à baixo, como se já não conhecesse muito bem, e melhor do que todos, meu corpo inteiro. A intensidade do teu olhar ainda me trazia vertigens, fazia minha mente delirar e desejar você. Ah, sim, essa sensação de novo. Conhecia-a tão bem.
O que era aquilo eu não sei. Na sua cabeça se passavam coisas indecifráveis, que nem você sabia explicar. E também não fazia questão de tentar. Deixava-me na dúvida. Cruel.

Mas, querido, eu te conhecia. Eu te lia, como um texto; lia você por inteiro. Satisfazia-me saber que te incomodava ver todos aqueles homens perto de mim. Perto demais, na sua opinião. Você queria ser um deles e poder substituir todos. Queria estar lá comigo, sendo único pra mim. Mas não admitia. Nunca, jamais, deu o braço a torcer. Nunca vi sua cara à tapas por mim. E nem por ninguém.

Eu sempre disse que uma hora ou outra você ia ter que largar esse escudo, essa máscara toda. Eu estou aberta. Ferida, exposta, aberta. Para você.

E apesar de ninguém ter recusado, ignorado, não-desejado isso, você não conseguia. Não conseguia olhar no fundo dos meus olhos e dizer o que queria dizer. Por mais que eu sentisse aquilo pulsando das suas veias, chegando em mim pelo seu calor, jamais ouvi de ti.

Se foi falta de coragem, pouco me importa. Se foi falta de maturidade, pouco me importa. Tua covardia e tua infantilidade te tornaram o homem que você é hoje. Sozinho. Amargurado. Arrependido. Ainda sinto tudo isso vindo de ti, sem precisar de palavras. Nós nunca precisamos de palavras.

Nos entendíamos tão bem, nos completávamos perfeitamente. Jamais outro corpo irá encaixar no teu abraço tão magistralmente, ninguém vai servir pro meu molde tão bem quanto você. Não precisávamos ser comuns ou convenientes. Apenas sinceros. Mas nem isso soubestes ser.

Sou curiosa, somente isso. Vim atrás de respostas, explicações. Pois não me conformo em ver um sentimento transbordar por casa orifício de um corpo mas não ser colocado pra fora em palavras. Eu preciso dessas palavras. Preciso ouví-las. Preciso que sejam admitidas. Não para ficarmos juntos, não para tentar te convencer - mais uma vez, fracassadamente - de que posso te fazer feliz. Não, hoje não preciso mais disso. Quero ouvir tais palavras para seguir em frente. Para tirar esse peso da minha consciência, de que ficou algo inacabado no passado.

Você arde em ciúmes quando me vê com outro alguém. Tenta me convencer, e se convencer, de que ele não é tão bom para mim quanto você.

Você sorri quando me vê. Talvez não na minha frente para eu não entender, mas sorri. E daquele jeito que eu mais gosto.

Você, antes de dormir, pensa em mim. Talvez tenha algo pra olhar e lembrar. Ou eu subitamente apareço lá, na sua mente, cansada de ficar escondida no canto mais escuro do seu peito.

Por mais que tente evitar, você sente saudade minha. Caso contrário não mandaria de vez em quando uma mensagem como quem não quer nada, ou me ligaria de madrugada, procurando alguém pra te reconfortar. E sou eu a dona dessa função. É a minha voz, as minhas palavras, o meu reconforto que você procura.

Se não é o bastante, darei-te mais infinitos motivos, não me faltam. Mas não preciso. Um dia você vai acordar com um corpo deitado no seu peito. Vai murmurar meu nome, só até encontrar um outro alguém. Vai se dar conta de muita coisa. Pra começar, vai notar que aquela silhueta não se encaixa no seu abraço... que apenas só uma - e você sabe muito bem de quem - era perfeita pra estar ali. E que, na verdade, ela já está com outra pessoa. E que você perdeu... Mas, principalmente, se dará conta de outra coisa. Muito maior.

E se não é amor... então não sei o que é.

Oceano

Eu gosto do jeito que seus olhos fecham quando você sorri. Gosto de como fica inseguro perto de mim. Não admito, mas adoro o fato de você reparar no meu cabelo toda vez que me encontra, ou até na minha roupa. Reparar em mim já basta.
Sabe quando você passa reto? Numa festa, na rua, em qualquer ocasião. Isso me mata. Mata aos poucos, mói minha sanidade, queima meu peito. Tenho vontade de exigir atenção, carinho, algumas palavras, ao menos, ou um simples olhar. Um simples olhar! Aquele olhar que costumava parar o mundo ao nosso redor para existir apenas eu e você.
"Eu e você", engraçado pensar em nós dois juntos novamente... Parece que passou tanto tempo. E na verdade, passou muito mais que isso. Quase não lembro do seu cheiro, do seu toque, da sua voz. Quase. Ainda há vestígios disso tudo em mim, como uma marca que eu não posso tirar. Não que eu não queira ou não deva, mas eu simplesmente não posso. Não dá.
Me pergunto se isso um dia vai passar. Esse sentimento que eu juro que não existir mais, que eu nego sentir. Essas lembranças que me fazem repensar no perdão, na segunda chance, num outro caminho, que me leve mais uma vez à elas. Quero saber se um dia vou ser capaz de olhar para trás e rir de tudo o que passou. De olhar para você e não ter as pernas bambas ou o coração acelerado ou a vontade insana de correr ao seu encontro e me jogar nos seus braços. A possibilidade disso acontecer parece ser tão mínima que já me recuso a nadar contra a corrente desse mar. É tão inútil. Muito mais fácil deixá-la me levar.
Mas, em caso de desistência, me sobra o afogamento. Morrer afogada nesse mesmo oceano de palavras e mentiras... e amor.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Desconhecido

Pra ser sincera, não sei por que comecei a escrever sobre ele. Foi um impulso sem motivos. Eu nem sequer conheço ele direito, as pouquíssimas palavras que trocamos foram no meio de uma conversa com muitos outros amigos nossos. E mesmo assim ele não tirava os olhos de mim e sempre dava um jeito de me elogiar – indiretamente, é claro. Discreto, engraçado. O tipo perfeito de “não corre atrás das mulheres, elas que correm atrás”. Já sofreu. Talvez não por muitas, até nem mais de uma. Apenas sofreu por alguém que virou seu mundo de cabeça pra baixo e hoje ele... Ele é assim. Misterioso, fechado, frio, não-romântico. Apaixonante. Mas nunca mais apaixonado.
O que me deixou inquieta foi o fato de eu sorrir tanto. Sorrir por nada. Sorrir apenas por o ver sorrir. Não é o sorriso perfeito, nem o mais bonito que eu já vi, ele era apenas contagiante. Os olhos transmitiam intensidade, maturidade, uma ponta de brincadeira e aquela dorzinha escondida ali, pra ninguém ver. Mas eu vi. E eu senti uma vontade inexplicável de curar o que ficou pela metade, que ele se negou a aceitar. Quis curar o incurável, tratar da ferida aberta. Olhava, ardente, o que sou por fora. Pena que não pode me ver por dentro. Pena que não pode sentir o que eu sinto, imaginar o que eu penso. Porque se pudesse, não me olharia assim. Fugiria de mim. Teria medo do que se passava na minha cabeça naquele momento, do meu estranho desejo de tirar dele aquilo que o prendia a um passado recente, um presente turbulento. Eu pretendia mexer em partes dele que provavelmente ficariam guardadas se dependesse somente daquele coração. Que se tornara frio, mas que de frio não tinha nada. Ele transmitia calor, sentimento, vontade de se entregar. E eu quis tanto abrir meus braços pra tudo aquilo. Quis tanto quanto ele lesse minha mente e fugisse de mim. Porque, nesse instante, já basta o que está acontecendo comigo. Basta eu não saber o que sinto pelos que já estão presentes na minha vida, não preciso de mais uma complicação. Mas é justamente quando a gente menos deseja, que acontece. Ou quem sabe eu só esteja usando-o como distração, para mudar o dono das minhas palavras. Tudo isso, por sua vez, pode ser fruto da minha imaginação. Mas seja como for, que apenas seja. Estou esperando sempre pelo pior, na esperança de que aconteça o melhor... Pelo menos uma vez.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011


"O valor das coisas não está no tempo em que elas duram,
mas na intensidade com que acontecem.
Por isso existem momentos inesquecíveis,
coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis". Fernando Pessoa

domingo, 26 de dezembro de 2010

Resto

Pensei em escrever sobre você. Mas não vale a pena. Na verdade, nem dá. Porque as palavras que eu usaria para falar qualquer coisa de você já estão ocupadas demais detalhando outra pessoa. Outra pessoa, outros acontecimentos, outras histórias. Tentei, então, lembrar-me de você. De alguma – qualquer – lembrança nossa. Mas não consegui. Minha cabeça já estava cheia de novas memórias e novos pensamentos, não sobrou espaço pra mais ninguém, quem diria você. Pensei em mandar uma mensagem. Mas minha caixa de mensagens já estava preenchida com outro nome, outras mensagens muito melhores do que qualquer resposta que você poderia um dia mandar pro que eu te enviasse. Cogitei a ideia, quem sabe, de sair com você. Mas se nada disso eu tinha, tempo não estaria sobrando também. Ele estava sendo muito bem usufruído com alguém, e, pensando bem, eu não me arrependia de gastar tanto tempo com esse alguém. E então, você se pergunta, eu me pergunto, eis a pergunta... Se não tenho palavras, lembranças, paciência e tempo para você, porque perdi exatamente essas quatro coisas nesse texto? Bem, porque dizem que cada um tem o que merece... Usei apenas o resto do meu tempo, o resto das lembranças, o resto da paciência e o resto de todas as minhas palavras para fazer jus ao que você é, hoje, para mim. Resto.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Masoquista

Cheguei a uma conclusão: meu coração não é orgulhoso, é masoquista. Nunca vi gostar de sofrer tanto. É um tal de sofrimento pra cá, sofrimento pra lá. E quando não sofro, sinto falta. A verdade é que atrás de toda essa dor tem aquela pontinha gostosa de prazer. Coração apanha, apanha, apanha e continua lá, batendo. Batendo ritmicamente ou totalmente fora de ordem. Batendo em outros corações, dando a eles a mesma “dor prazerosa” que sente.
Masoquista. Ah... Coração burro.