sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Talvez

Talvez amanhã o mar não esteja tão agitado. Talvez cesse a chuva e nasça um belo sol. Talvez até, quem sabe, eu veja um arco-íris. Talvez você mude de opinião em relação a mim. Talvez, se eu sumir por um tempo, você até sinta minha falta, ou talvez não. Quem sabe amanhã eu tenha conseguido esquecer tudo, talvez acorde com mais força e menos dor. Ou talvez eu acorde pior e precisando mais de você. E, infelizmente, ou felizmente, não consigo prever o amanhã. É sempre uma incerteza, um talvez nunca decifrado. Posso planejar meu dia, mas nunca vai sair exatamente como imaginado. Imprevisível, almejado, inevitável... Tanto quanto você. Porque não consigo nunca, por mais que eu tente, prever qualquer palavra ou ação sua. E mesmo assim, cada dia é uma surpresa diferente, por isso almejo tanto acordar e falar com você, te ver. E independente de decidir que quero esquecer ou nunca mais falar contigo, não consigo evitá-lo. Mas, quem sabe, talvez um dia eu consiga... Prever você, não desejá-lo, evitar-te. Talvez um dia você deixe de brilhar tanto pra mim. Até consiga agir naturalmente perto de você. Talvez eu pare de sofrer precocemente e tirar conclusões precipitadas. Pare de me apaixonar sempre pela pessoa errada. Talvez, quem sabe, eu consiga fazer você se apaixonar por mim... Ou talvez você simplesmente se apaixone. Amanhã, não sei, talvez eu deixe de gostar tanto do seu sorriso e da sua risada. Pare de revirar minha barriga a cada beijo seu. Talvez essa magia entre nós dois acabe, talvez ela não tenha nunca começado e seja coisa da minha cabeça. Quando meu celular tocar, talvez seja você me pedindo pra olhar pela janela e estando lá fora na frente do meu portão me esperando. Talvez nem se lembre do meu número, da cor dos meus olhos. Meu sorriso, minha insegurança. Talvez se lembre apenas de como eu era chata e como te olhava sempre apaixonada. Ou quem sabe... Quem sabe você se importe comigo e acorde amanhã com vontade de me ver. Talvez não sinta nem vontade de falar comigo. Mas talvez dê tudo certo entre a gente... Talvez cessem as brigas e os problemas, talvez você queira algo mais sério no futuro, talvez passe a gostar de mim. Mas só talvez.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Acordei feliz

Não, não dormi por muito tempo, na verdade foram poucas horas e ainda sinto-me cansada. Não, também não recebi nenhuma mensagem de bom dia. Ninguém me ligou ontem antes de dormir ou falou alguma coisa bonitinha também. Não te vejo há dias. Estou com fome e preguiça de levantar. Na verdade queria poder desligar o despertador e voltar a dormir, voltar a sonhar. Mas ainda tenho que tomar banho, nesse frio, e ir pra aula. Falar nisso, já estou atrasada. E a droga do despertador ainda toca na melhor hora do sonho. Mas essa noite... Essa noite você veio me visitar. Trouxe seu abraço, sua calma, seu colo. Aquele seu cheiro que parece tão real, e mesmo quando acordo ainda consigo senti-lo. Mas é claro que eu tive que despertar no melhor momento, sempre é assim. E por isso tenho mil motivos pra levantar de mau humor. Mas por apenas um único motivo, a exceção, hoje eu acordei feliz. Você é sempre a exceção.

Foda-se

Então foda-se. Foda-se o que você sente, foda-se o que eu sinto. Porque isso realmente nunca importou muito pra você, não é? Nunca deixou de ser grosseiro quando eu pedi ou demonstrou alguma coisa quando eu precisei. Nunca. É assim mesmo, vai levando com a barriga, achando que vai ser sempre do seu jeito. Mas deixe eu lhe explicar uma coisa... Eu estou farta de tanta falta de respeito, de tanto ter que agüentar seu mau humor ou suas críticas diárias. Por motivos desconhecidos eu ainda procuro nos seus olhos meu antigo amor, a pessoa que existia no lugar disso que está aí hoje. Traga-me de volta tudo aquilo. Eu sei que você não é assim e eu não entendo porque continua batendo na mesma tecla. Num dia diz que sente minha falta e pede pra me ver, no outro diz que eu incomodo de qualquer forma. E agora? Não, realmente, e agora? Desculpa, mas eu me sinto mais perdida do que em qualquer momento anterior. Eu to confusa. Quero me encontrar, e continuo tentando me achar em você. Abre os braços, sinta. Sinta o que eu quero mostrar, pare de regular seus sentimentos, pare de regular mixaria. Não me importo de que seja sempre do seu jeito desde que saiba fazer do meu às vezes. Só às vezes. Dizer alguma palavra carinhosa ou o que realmente se passa aí dentro. Perdoa-me por reclamar tanto, por falar tanto. Perdoa-me, meu amor, por ser tão irritada e sem paciência com você. Por ter a mania chata de gritar quando falo e ser tão insegura. Por te fazer sentir ciúmes indesejados e por colocar meu cabelo atrás da orelha do jeito que você não gosta. Por te incomodar e sentir tua falta por causa de um dia longe de você. E não espero perdão. Na verdade, não espero mais nada de você. Só fique aqui comigo enquanto estou brava e gritando contigo. Fique aqui e espere esse momento de raiva passar. Nunca, jamais, vá embora, não importa o quanto eu peça; porque se por acaso um dia eu te pedir isso, não acredite. E tenho tanto pra falar, tanto pra mostrar... Quero te provar tanta coisa e te explicar tudo... Tanta coisa... Muita coisa... Mas, sabe? Foda-se.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Sumiu

Queria fazer você admitir o que sente. Tentei, tentei, mas tentei tanto que enchi teu saco. Virei um grude carente, necessitado, impossível de controlar. Eu que controlava você, quando entrava ou sair do computador, quando o celular estava desligado ou quando se desligava de mim. Esquecia, momentaneamente, dessa sua barreira interna, que não transparecia absolutamente nada, e me deixava sempre angustiada e sem a certeza do que você pensa. Como se isso me fizesse parar mesmo. Ouvia sempre que o que você estava fazendo era pro nosso bem, que queria o melhor para nós e que eu iria entender depois. Falou tanto, disse muito, e na verdade não quis significar nada. Falou sem pensar, disse sem pretender, e escorregou nas próprias palavras. Como pôde ser tão cruel? Usar expressões horríveis, dizendo coisas que sabia que iam me afetar? Tirando de mim tudo aquilo com o que eu me importava? E então me viu ali, tão pequena, tão menina, tão desesperada e desamparada... Enxergou-me tão indefesa e magoada, tão ingenuamente triste e sem pretensões de devolver-lhe as horrorosas palavras a mim dirigidas. E aí sumiu. Por horas, por dias, realmente não contei, porque não esperava seu retorno, achei que era definitivo. Juro que tentei me superar, me neguei a sofrer, fui à busca de outro alguém. Pouco me importava se você estava bem ou se iria ficar. Fosse injusto, cruel, não me preocupei em correr atrás e pedir explicações. Tentei minimizar a dor desabafando-a em textos e mais textos, detalhando seu comportamento e a saudade que por você sentia, como se não houvesse outro jeito de te trazer de volta, mas no fundo sabendo que você iria lê-los. Porque, sinceramente, alimentava uma falsa esperança de que ligasse um pouquinho ainda para mim e me vigiasse escondido. E mais rápido do que eu podia imaginar, lá estava você de novo. Veio falar comigo tão naturalmente que quando vi seu nomezinho piscando na minha tela comecei a chorar. Não sei, meu coração realmente parecia que ia pular fora. Não foi uma conversa como todas as outras; foi formal, estranha. E aí você me convidou pra sair. Inventei mil desculpas e lutando contra minha vontade não sai. Estava em estado de choque. No outro dia, veio falar comigo de novo... Dessa vez mais natural do que qualquer outra conversa. Comentei seu sumiço e você simplesmente desconversou. Chamou-me de louca exagerada. Tudo bem, porque não foi você que ficou aqui sentindo falta, sem saber que iria voltar, não é? Chamou-me para sair de novo. E lá se foram mais mil desculpas esfarrapadas. Esse medo de te ver de novo, de gostar tanto e não conseguir mais desgostar. De sentir seu cheiro, seu toque, o calor que seu corpo emite ao meu, de ficar descontrolada procurando seu beijo mais uma vez enquanto você some sem deixar explicações. Não vá embora novamente. Não me deixe sozinha nos fins de semana em que você me fazia companhia. Não minta dizendo que não gosta de mim e fazendo um buraco no meu peito, dizendo que precisa de um tempo longe de mim, que não quer me ver, que não sente minha falta. Não diga isso sem realmente pretender. Não minta dizendo que vai sumir e que isso vai ser melhor para nós. Não fale nada disso pra depois me contar que na verdade era tudo mentira. Que você prefere que eu te odeie ou não te queira do que seja apaixonada por você... Porque não tem mais tanto tempo assim pra dedicar a mim, e que vou sofrer se não tiver seu carinho e sua atenção de antes e por isso prefere sofrer e levar toda a responsabilidade do que me sujeitar à dor de alguém apaixonado. Mas deixe-me te dizer que sofro mais sem você do que apenas com um pedacinho seu. E na verdade, nunca reclamei pelo tempo. Sei que se sumir, terá seus motivos. E eu te quero, mas posso te querer todo domingo ou duas vezes por mês. Posso te querer nos seus horários vagos ou nas suas noites tão cansadas te fazendo companhia e esperando você dormir. Porque independente de quando, eu te quero. Quero-te hoje, te quis ontem, vou te querer amanhã. Quero agora, depois e quis antes. Quero pra sempre, quero enquanto dure. Mas não me impeça de querer. Deixe ser verdadeiro. Intenso. Pare um pouco, por favor, de controlar todas as situações; deixe-me sofrer se necessário, deixe-me amar se for cabível. Com meu jeito de criança, meu coração inocente. Só não suma, não vá embora – de novo.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Chato

Eu juro que esses pensamentos que me assombram são loucas vontades, insaciáveis, impossíveis de afastar. E o pior é que eles vêm nas horas mais inapropriadas... No meio da aula na explicação da matéria mais difícil, no almoço quando minha mãe está falando alguma coisa importante, quando estou tentando me concentrar para estudar, quando estou tendo uma conversa com algum homem bonito e tentando me interessar por ele. Mas me perco. Perco-me nas imagens que vem de repente e inundam minha mente como ondas num mar agitado, meu olhar se perde no nada. E eu tento afastá-las. Tento, mesmo no fundo não querendo. Na verdade, queria poder deitar e fechar os olhos, implorar por mais e mais pensamentos como aquele, relembrando tudo o que já vivemos. Pouco tempo? Não ligo. O tempo é o de menos entre nós.
E então meu celular toca, volto pra realidade. Antes de olhar o número, coração dispara inconscientemente pensando: é ele. Mas nem é. É aquele ex-namorado chato que me viu tocando a vida e agora quer perdão. Na outra vez, era aquele menino que, quanto mais eu ignorava suas chamadas, mais ele ligava. Chatos, todos chatos. E não ache que você está fora dessa lista, é chato também. Mas é um chato tão chato que me irrita. Tira-me profundamente do sério e sinto vontade de segurar seu pescoço, esganando-o, e te deixar sem ar por apertá-lo um pouquinho forte demais pra ver se você aprende a lição. Mas você gosta, adora. Faz tudo por querer, conhece meu temperamento. Irrita-me, me provoca, somente pra depois poder me pegar no colo e colocar contra a parede, prensando-me e rindo da minha repentina mudança de humor. Mas não tem como não ceder. Faz minha raiva virar paixão, e minha vontade de estrangular-te serem minhas mãos na tua nuca te puxando pra mais perto de mim. Deixar-te sem ar, mas por causa de um beijo, ou então vários. E te matar, sim, mas de amor.

sábado, 14 de agosto de 2010

Quebra-cabeça


Não entendo. De verdade, não entendo. Como é possível, no meio de tanta gente, sentir falta de uma só? E quando falo “muita gente” me refiro a seis bilhões de seres humanos, de indivíduos, de pessoas que poderiam completar meu dia... E simplesmente não completam. Como se faltasse um pedacinho em cada uma, ou sobrasse algo, como se não fosse a peça pro meu quebra-cabeça. Sinto-me exatamente assim, procurando a última peça, como se eu tivesse bilhões de opções e a única, e certa, não estivesse ali. Não digo que ela deixa um buraco em mim; só sei que pareço incompleta, faltando alguma coisa pra dar o toque final. E esta tal coisa, no meu caso, seria você.
Acho que os únicos entendedores do que falo serão aqueles que já passaram por isso. Não tenho ideia de como explicar a sensação que tive hoje, o turbilhão de sentimentos e lembranças que me atingiram como um raio, quando eu, tão desligada e apoiada no vidro do carro, coloquei meus olhos naquele carro do outro lado da estrada. Quando eu, sem querer, perdi o fôlego por dois breves segundos, avistando você dirigindo despreocupadamente, de óculos escuros, com aquele mesmo sorriso, o qual ficara gravado em minha cabeça. Foi tão rápido. Tão bom. Minha vontade era de pular da janela e sair correndo em sua direção, pro seu colo, implorando perdão e um pouquinho de amor. Querendo, nem que fosse pelo menor tempo possível, ter sua atenção de novo, conseguir fazer você ver em mim o que via antigamente. Me senti extremamente impotente, como se você estivesse ali e, por mais que eu esticasse o braço, nunca conseguia te alcançar.
Admito que fui pega de surpresa. Eu, que me julgava tão forte e determinada, que aprendi tanto contigo em relação a homens e a sofrimento. Havia me ensinado que vocês, homens, eram todos iguais e que sofrer por vocês era perda de tempo, mas inevitável, e que o remédio para tudo isso seria a indiferença, ou não se apegar e depender tanto de alguém. Mas hoje tenho que discordar desse pensamento. Se os homens são todos iguais, por que não podemos simplesmente substituí-los? Parar nossa vida quando estivesse sofrendo ou descontente, e falar “ei, juiz, substituição! Entra o 9 e sai o 7...”. Diz-me, não seria tão menos complicado? Mas é claro que não é assim. Tirar alguém da nossa vida dói, sem contar que leva tempo para ser superado. Basicamente, não é só conhecer outra pessoa e querer que ela fique no lugar daquele que foi embora. Porque, infelizmente, só ele foi embora. O maldito não levou as lembranças, as fotos, as cartas. Ele deixou seu cheiro na minha roupa, seu gosto na minha boca, sua voz no meu ouvido... Deixou suas manias que viraram minhas manias, e me flagro fazendo exatamente aquilo que eu reclamava tanto que ele fazia. Deixou saudade no meu coração, lágrimas nos meus olhos. Suas mensagens no meu celular e sua foto no meu plano de fundo. Ficaram as dúvidas que nunca tiveram suas merecidas respostas. Foi embora, mas não levou absolutamente nada, que quando viro pro lado me esqueço de que você não está mais aqui. Porque as memórias ainda estão frescas. Às vezes fico me perguntando por que ele não me ligou hoje nem entrou no computador. Foi tão repentino e sem motivos que não consigo entender a razão de ter desistido de mim. De nós. Será que eu era a única, sinceramente, que acreditava na gente? Que ainda acredita? Que vai dormir toda noite com um pinguinho de esperança de que você venha com saudade no dia seguinte? E você... Você não se importa? De jogar tudo fora, de me deixar desamparada? De sair e fechar a porta na minha cara, me puxar o tapete e tirar a base na qual eu havia construído tanta coisa em cima? Será que você pode, por favor, largar esse orgulho por um minuto e vir me encontrar em casa só pra me explicar o que está acontecendo? Porque eu não escolhi ser mais nova que você, nascer anos depois. Não escolhi te conhecer e gostar de ti. Essa minha mente adolescente, com tantos problemas e princípios diferentes dos seus, a qual eu não queria ter. Maturidade, meu amor, não é algo que vem do nada, que ganhamos quando queremos. Porque se fosse, escolheria ser a pessoa mais madura do mundo, largaria minha infância, minha adolescência, excepcionalmente pra agradar-te, para acompanhar-te. Mas não é assim. E você, injustamente, ao em vez de me ajudar a crescer, simplesmente vira as costas e diz que volta quando eu fizer isso sozinha. Como você espera que eu lide com tanto sofrimento e ao mesmo tempo torne-me uma mulher? Sinto lhe dizer, mas era assim que eu me sentia contigo. Forte, poderosa, mulher. E por mais que você tivesse seus momentos infantis, que predominavam seu comportamento, nunca lhe cobrei mais do que isso. Aceitei tudo, afinal é assim que você é, que eu sou. Pedir pra alguém mudar é algo tão injusto. Mas mesmo pensando assim, mudaria se você pedisse.
E aqui estou, novamente, procurando a tal peça do meu quebra-cabeça. Eu sei que a acharei. Talvez eu tenha que, momentaneamente, colocar aquelas pecinhas que parecem encaixar-se tão bem, que de perto montam certinhas, mas que olhando de longe você enxerga a diferença delas pro resto do quebra-cabeça e, quando cansa dessa diferença, volta a buscar a peça certa. Seis bilhões de almas que poderiam me fazer feliz. Sinto falta de uma. Seis bilhões de corações batendo freneticamente, que poderiam bater por mim. Sinto falta daquele único que se nega a me ter como motivo de sobrevivência. No meio de uma multidão, sinto-me sozinha. Falta você.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Olhos

7:20. Atrasada, novidade nenhuma. Abri o portão do meu apartamento e sai correndo, sempre uma luta pra chegar no horário. Corri um pouquinho e logo cansei, fui caminhando pelo resto do trajeto. Todo dia o mesmo caminho, o mesmo horário, mesma preocupação. Resolvi reparar no resto. Passava todo dia pela mesma caminhonete branca que estava sempre na mesma vaga, tinha decorado até a placa dela. Dava bom dia pro mesmo inspetor de outro colégio. Lá estava o mesmo flanelinha de sempre, chamando os carros e ajudando os motoristas a estacionar. Via os alunos passando por mim, e encarava-os nos olhos, sem querer ser rude, apenas tentando enxergar algo mais. Algo que eu pudesse ver, que pudesse ser dito apenas por um olhar. E na verdade, descobri que os olhos nos dizem coisas que muitas vezes palavras não sabem explicar, que o rosto esconde numa feição contrária ao que sente. Vi que de manhã cedo são raras as pessoas com bom humor ou um sorriso no rosto, que te cumprimentam na rua. Eu, inclusive, não sou uma delas. Acho-me até meio grossa por passar por tanta gente e não, simplesmente, sorrir.
Mas então, passei por uma menina do meu tamanho que me olhou e logo desviou o olhar. Um homem uns vinte anos mais velho, de terno e gravata com uma maleta na mão, que, ao meu olhar, só vi irritação, e eu mesma fui obrigada a desviar. Um menino um pouco mais velho que eu, que me olhou e igualou meu olhar, ficou lá me encarando e sendo mais corajoso do que todos os outros. Posso dizer que ali se formou um breve começo de sorriso. Mas ele foi embora. E não só nesse dia, passei a fazer isso em todos os outros. Antes da aula, depois, à tarde, no shopping, nas festas. Com certeza os olhos podem transparecer muita coisa, como dizem que os olhos são o espelho da alma, e só posso concordar. Tento enxergar nas pessoas o que elas escondem dentro de si.
Ta, quanta mentira. Não sobre as pessoas, ou o que diz seus olhos. Mas sobre meu motivo de encará-los. Eu procuro, desesperadamente, achar alguém que seja compatível comigo. Algum olhar que, ao encontrar-se com o meu, cause aquela faísca, aquela sensação boa. Não busco a mesma cor, porque os seus não tem cor definida em minha opinião, são um mistério. E na verdade, é esse mistério que eu busco. Essa barreira, esses sentimentos em códigos, tão difíceis de decifrar. Procuro olhos que sejam raros e que não transpareçam o que se passa por dentro. Sei que busco o contrário daquilo que todos querem, mas é isso que me satisfaz. Foram esses olhos, que ao me olharem, ao rolarem por meu corpo inteiro, me encheram de dúvidas. E eu não gosto da certeza, gosto das perguntas indecifráveis que correm por minha mente, gosto do fato de você não respondê-las e eu não saber quando é mentira sua. Gosto de correr o risco de você estar oco por dentro enquanto se diz preenchido. Gosto de chegar bem perto dos seus olhos, olhá-los com toda minha vontade, e não enxergar absolutamente nada. Conseguir ver apenas o que você quer que eu veja, apenas o que você permite que fique fora da barreira e eu possa ver. O resto, meu caro, pode ser sofrimento tanto quanto paixão, que nunca vou saber. E é esse mistério que me puxa sempre de volta a você. Porque é triste tentar gostar de outra pessoa e conseguir enxergar sua alma. Triste pra mim. Acostumei-me com seus olhos, suas brincadeiras, seu jeito que não da de entender, tão intocável, seguro e estupidamente grosseiro. Não queria que fosse de outra forma. Não queria que fosse outra pessoa. Mas agora que não tenho mais seus olhos, procuro no olhar de outros aquilo que encontrava unicamente no seu. Busco severamente, diariamente, desesperadamente alguém que deixe as mesmas dúvidas. Não encontro. Continuo então, contra minha vontade, tendo que ler o que se passa internamente em cada um e ver o que todos poderiam tentar me proporcionar; enquanto só você, na verdade, mesmo sem me mostrar, conseguia me fazer sentir.