quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Limite

As coisas têm limites. As pessoas têm limites. Tudo tem um determinado limite, uma linha final. Tudo acaba. Recomeça.
E até onde agüentaríamos? Onde é nosso limite? O relógio parecia apressar-me, cada tique-taque dele me parecia um segundo a menos, tempo perdido. Algo me dizia para aproveitar, não desperdiçar minhas chances. Que estava chegando. Chegando o que? Não faço idéia. Mas vinha. Cada vez mais depressa, me colocando contra a parede e me deixando sem ar. Dessa vez não era ele o causador. Mas era com ele que eu deveria estar. Deveria medir minhas palavras, meus atos. Eu o perdia a cada movimento errado, cada palavra mal colocada. Assistia-o gostar cada dia menos de mim, de “nós”. Se é que houve alguma vez “nós”. Sentia saudade do tempo que ainda estava por vir e não queria deixá-lo passar entre meus dedos. E estava mais perto, mais rápido, o relógio continuava no seu tique-taque. No desespero de fazer as coisas do modo certo, fazia tudo errado. Ele passou da raiva para a falta de paciência, e logo começou a me ignorar. Tudo que fazia era inútil, mas continuava fazendo. Desejava que ele parasse de ir para longe, que aquele tique-taque insuportável parasse de tinir em meus ouvidos. Ele voltava, cada vez mais distante, por mais que estivesse perto. Eu o perdia. Perdia sem nunca o ter tido de verdade. Havíamos nós chegado ao nosso limite?

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Encarei-o por alguns segundos. Aqueles centímetros que nos separavam me agoniavam, queria puxá-lo pra mais perto. Não, ele não gosta de muita aproximação. Refleti comigo mesma quantas vezes aquelas discussões nos deixariam nesse silêncio insuportável. Quantas discussões ainda viriam, até onde eu aguentaria, até onde ele aguentaria. Desde que havíamos entrado naquele carro ele não havia olhado pra mim, não se deu ao trabalho de nem ao menos conferir se eu tinha colocado o cinto, como sempre fazia. Isso me preocupava, eu o conhecia, ele não era assim. Na verdade, nem sei se o conhecia direito, aquele lado dele ainda não havia visto.
Perdi-me nos meus pensamentos e nem percebi que o olhava fixamente. Ele virou a cabeça e me lançou o olhar mais frio que aqueles olhos poderiam mostrar. Meu coração apertou-se e eu sabia que aquela noite não terminaria bem, aquilo tudo não era normal.
Tá nervosa? Ele perguntou. Fiz uma expressão de confusão e tenho que certeza que ele notou, e apontou pra minha perna que balançava freneticamente. Não, não estou. Só quero chegar logo em casa e tomar um banho, estou com calor. Eu respondi por educação, porque a pergunta dele havia sido no tom mais sínico possível. Ele apenas sorriu com o que eu disse, não me olhando novamente. Eu perguntei se podia mudar de música, ele me ignorou. Perguntei se queria tomar um sorvete antes de chegar em casa, ele me ignorou. As lágrimas começaram a brotar involuntariamente, eu as limpava com a manga do casaco quando elas insistiam em pular pela borda dos olhos. Aquele sentimento estranho começou a se transformar em raiva, eu não havia feito nada pra receber aquele tipo de tratamento. Estávamos chegando à minha casa, reconheci o caminho. Pensava em tudo o que ia lhe falar no momento em que parasse o carro, ia ser sincera, falar que não aguentava mais aquilo, que não queria mais nada. Tentei não imaginar as consequências, os dias sem ele, o vazio que iria ficar. Respirei fundo. E de novo. E mais uma vez. Ele percebeu que eu estava alterada, mas dessa vez quem não olhava era eu. Chegamos na minha rua, ele parou exatamente na mesma vaga que parava toda vez que ia me buscar. Tirei o cinto lentamente, virei-me para ele e ia começar a falar, quando ele de surpresa puxou meu rosto com as mãos e me deu um beijo demorado, espontâneo. Deu aquele calorzinho gostoso, tranquilo, saudável no peito. Coloquei uma mão na sua nuca, apertando-o contra mim, mas ele logo recuou e tirou minha mão. Esqueci que ele não gosta de muita aproximação. Chegou perto e sussurrou na minha orelha: eu te amo. Com a outra mão abriu a porta do carro e eu saí. Entrei no meu quarto, sentei na cama, ainda com a mesma expressão. Não sabia se ria, se chorava, se sentia raiva ou adoração. Mas sabia que adorava aquelas surpresas dele, aquelas oscilações de humor. Amava aquele sorriso, aquele beijo. Sabia, acima de tudo, que não viveria sem ele. Eu o amava.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Realidade dos sonhos

Finalmente sinto aquele cheiro de terra de novo. Meus pés tocam e equilibram-se, exatamente como antes. Um gesto familiar, do qual eu sentira tanta falta. Afinal, havia muito tempo que eu estava viajando. Viajando na minha própria mente, minhas próprias ideias, meus autênticos sentimentos. Sentimentos que ainda não nomeei, que são tão intensos que ninguém consegue definir. Eu viajei para um mundo só meu. Acreditava no que queria, via o que queria. As pessoas eram boas, elas não tinham intenção de te magoar. Tudo dava certo no final. As lágrimas, apenas de alegria. Sorrisos em todas as faces ao meu redor. Eu podia sentir o aroma da felicidade, dos sonhos de cada um, que eram os mais verdadeiros possíveis. Estava no meu próprio sonho. Há quem chame de criança. Imatura. Uma mente que ainda tem muito a aprender. Não discordo. No fundo, todos são crianças. Todos desejam algo que não podem ter, criam um mundo que gostariam que fosse o real. Apenas não demonstram, não se entregam. Eu me entreguei, adorei. Passei muito tempo vendo a alma das pessoas apenas olhando nos seus olhos. Não tinha, realmente, os pés no chão. Eu flutuava, voava, como se ninguém jamais pudesse me alcançar, me parar. Fosse isso um sonho de criança ou não, foi maravilhoso. Às vezes a realidade torna-se insuportável, dura demais, ruim demais. Mentiras nos enchem os ouvidos, nos furam o coração. O egoísmo vira a base de tudo, cada um por si, você mesmo vem em primeiro lugar. As outras pessoas não tem vez na sua vida. Você as deixa passar, as deixa ir embora, apenas pelo simples fato de aceitar que muitas e muitas pessoas passarão ainda. Falta a vontade de tornar algo inesquecível. Falta a vontade de tentar. E muitas vezes as coisas saem do controle, porque a vida acontece a cada segundo, você perde segundos o tempo todo, enquanto deveria aproveitá-los. Não leve a vida tão a sério. Devemos ter nossos momentos de realidade, de pé no chão, de cabeça madura. Mas ninguém é feliz se não viajar. Viajem. Olhem ao redor e vejam o mundo com outros olhos, talvez a expressão certa seja até com “olhos de criança”. Inocência, honestidade, carinho, compaixão. Nem tudo vem pra te atingir. Quando cair, levante, siga em frente. Você cairá muitas vezes ainda. Talvez o segredo de uma mente sã seja fechar os olhos para certas coisas, não acreditar em outras, e sonhar. Sonhar a cima de tudo. Podem tirar-te tudo, mas jamais tirarão seus sonhos. E enquanto julgam o resto realidade, real mesmo são os sonhos, que não te abandonam.

“De sonhar ninguém se cansa, porque sonhar é esquecer, e esquecer não pesa e é um sono sem sonhos em que estamos despertos.” Fernando Pessoa

“Nunca deixe que lhe digam que não vale a pena
acreditar nos sonhos que se têem
ou que os seus planos nunca vão dar certo
ou que você nunca vais ser alguém...” Renato Russo

“Somos do tamanho de nossos sonhos.” Fernando Pessoa

"Para tornar a realidade suportável, todos temos de cultivar em nós certas pequenas loucuras." Marcel Proust

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Nunca mais

Vê-la dormindo me trazia um pouco de paz. Depois de um dia como aquele, desejava que todas as noites terminassem assim. Nossas brigas deveriam cessar, nossa relação estava ficando desgastada por causa disso. Toda vez que ela ameaçava ir embora, meu coração gelava. Nunca fui homem o bastante para pedi-la com palavras objetivas que ficasse. Nunca implorei para que não fosse embora. Fingia indiferença, era irônico o tempo todo com ela, e via o quanto aquilo a irritava. Ela realmente nunca teve coragem de partir, falava muito e fazia pouco. Ameaçava todo dia, toda hora, a cada briga nossa, no fundo esperando uma reação diferente minha, talvez precisando saber que a queria comigo para ficar mais segura. E até hoje me arrependo de não ter dito tudo o que realmente queria. Era uma gritaria repulsiva, seja por ciúmes ou por qualquer outro motivo. Ela arranjava briga por tudo, fosse por eu não me lembrar de algo que ela havia me contado ou por não parar de ser irônico, cínico, o tempo todo com ela. Odiava quando ela me tratava como um objeto, como uma propriedade dela, apesar de não termos nada significantemente sério, e isso nos causava mais brigas. Acabava sempre em choradeira, as lágrimas corriam involuntariamente pelo rosto dela e aquilo me dava náusea, sentia nojo de mim mesmo por magoar ela daquele jeito. Sem perder a postura, continuava sério e indiferente perante sua famosa ceninha, que se repetia sempre. Pelo menos continuava assim por fora. Por dentro, eu desmoronava a cada dia que passava. Ela desistia depois de alguns minutos e corria pro meu colo, ficava lá me abraçando e beijando meu pescoço, pedindo desculpas por algo que nem era culpa dela. Logo vinha o momento de raiva, levantava e dizia que iria embora, que depois que saísse por aquela porta não voltaria nunca mais, dramatizava todas as suas palavras. Eu não me movia. Ela esperneava e chorava mais, muito irritada. “Dá pra você fazer alguma coisa? Vai ficar aí me olhando? Não liga pras nossas brigas?” – ela gritava. “Não” eu respondia. Aquilo bastava pra começar o fim da briga, ela saia correndo na minha direção, me estapeando e falando coisas incompreensíveis, feito uma louca. Eu segurava seus braços que relutavam contra os meus, a pegava no colo e jogava na cama, e ali a segurava ate que parasse um pouco. Depois vinha os beijos, o amor, a noite. E finalmente chegávamos a esse ponto, ela dormia pacificamente do meu lado.
De repente começou tudo de novo. Ela acordou, sorriu, me deu um beijo. Sempre tentando arrancar um sorriso meu. Fiz uma brincadeira por causa do seu cabelo desgrenhado e ela riu. Conversamos um pouco e ela quis saber porque eu não chorava. “Eu não choro, acho desnecessário” respondi. Ela não se satisfez. Incomodou tanto, mas tanto. Disse que sempre havia a primeira vez. Eu a lembrei que sobre primeiras vezes conhecíamos bem, havia sido o primeiro para ela em muitos sentidos. Isso nos fez rir, ela me deu um abraço forte, encostou sua testa na minha e perguntou de novo como eu aguentava viver sem chorar, que o choro era um desabafo humano. Não me aguentei, fiz uma piadinha qualquer sobre aquilo e fui extremamente grosso, mas ela já estava acostumada, nem retrucou. Estúpido. Só vai dar valor quando perder – a ouvi sussurrar, mas ignorei. Ouvi seu suspiro desapontado e fui para a cozinha pegar algo para comermos.
“Quer suco de laranja?”, “não amor, obrigada”. “Hum, quer panqueca?”, silêncio. “Quer ou não?”, nada de resposta. Fui até o quarto e não a achei. Banheiro, sala, quarto de hóspedes. Nada. “Onde essa safada de meteu?” pensava. Liguei pro celular dela, desligado. A bolsa dela também não estava ali, devia ter ido embora. Como sempre, indiferente, sentei na frente da televisão e fiquei a tarde toda assistindo um jogo de futebol. No fim do segundo tempo, meu celular começou a tocar. Deve ser ela, não vou atender, quem mandou sumir. Tocou de novo, e mais uma vez. Peguei pra ver o número, ela não costumava ligar com tanta insistência. Desconhecido. Resolvi não atender. Passada uma meia hora, minha campainha tocou. Sabia que ela ia voltar. Fui até a porta e a abri, pronto pra ser ligeiramente grosso e mandá-la para casa, me deixar em paz por um tempo, ia dizer que estava de saco cheio das nossas brigas e que queria ficar sozinho um pouco. Quem pairava na minha porta não era aquele corpo pequeno com os dois olhinhos verdes e cabelo escorrido. Era uma senhora mais velha vestida de branco, e um homem, esse vestido de preto. Antes de qualquer coisa, a mulher me pediu pra ficar calmo que iriam me explicar tudo e depois gostariam que eu os acompanhasse até o hospital para reconhecer um corpo. Depois disso, tudo aconteceu tão rápido que não me recordo direito. De repente eu estava sentado no sofá, incrédulo, a senhora falava algo, cabisbaixa, mas eu não conseguia ouvir nada, via apenas seus lábios se movendo lentamente. Senti enjoo e uma ânsia de vômito, corri para o banheiro e não saiu nada. Fiquei lá parado apoiado na pia enquanto pinguinhos de agua caiam ali. Olhei pra cima e vi que os pingos vinham de mim. Tentei não chorar, mas aquilo era muito mais forte que eu, saia deliberadamente como se eu não pudesse controlar o que estava sentindo. Com o rabo do olho, espiei o meu quarto, vi minha cama bagunçada. Não meu amor, você não pode me deixar. Não agora. Tenho muita coisa pra dizer. Por favor, esteja bem. Desejei com todo meu coração. Procurei desesperadamente as coisas dela que ela deixava na terceira gaveta do meu armário, mas não havia nada ali, ela levou tudo. Acompanhei os senhores até o hospital. Reconheci seu rosto, impossível não reconhecer. Peguei na sua mão, que dessa vez se encontrava gelada, aquela mão que me acalmou e me esquentou, que me fazia ficar louco de raiva ou louco de amor. Ela estava amassando algo, uma foto. A nossa foto. Tirei dela, sem conseguir conter as lágrimas de novo. Atrás estava escrito eu te amo, não importa o que aconteça, vou sempre te amar. Ela tinha me dado aquela foto no meu aniversário, como não pude dar importância pra simples palavras? Que hoje fazem toda a diferença. Queria ter dito tudo o que se passava aqui dentro, queria ter chorado pelo menos uma vez com ela, fosse de alegria, raiva ou tristeza. Eu tive que perder pra dar valor. Desejei tanto que as brigas cessassem, e agora que não havia mais brigas, desejava-as toda manhã. Sentia falto daquele cheiro, aquele sorriso, aquele beijinho de bom dia. Saibam dar valor enquanto há tempo, tudo acontece tão rápido que sai do controle, e não há nada que possamos fazer. O que eu não faria por uma segunda chance agora... Não podia imaginar que, quando ela disse que depois que saísse por aquela porta não voltaria nunca mais, esse nunca mais realmente duraria pra sempre.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Hoje me deu uma loucura. Deu saudade de pessoas que não vejo há tempo e outras que não falo há mais tempo ainda. Senti uma vontade absurda de falar coisas que em dias normais não falaria - e falei. Fiquei com um desejo insano de vê-lo e enchê-lo de beijos e carinhos e mimos e abraços e mordidas. De sussurrar no ouvido dele tudo o que está preso aqui dentro de mim, de falar tudo o que penso, não importando o quão ridículo ele ache minhas palavras dramáticas. Deu vontade de fugir de casa, sumir por algumas horas, deixar todo mundo preocupado. Desligar o celular e ir pra praia, aproveitar o sol, não pensar em nada o dia todo. Talvez algumas pessoas precisem sentir minha falta e ficar loucos de preocupação pra perceberem que na verdade se importam comigo, que gostam de mim. Ah, mas hoje... Quis fazê-lo sentir ciúmes e brigar comigo, só pra sentir depois o gostinho da reconciliação. Quis fazê-lo me odiar muito, só pra depois poder reconquistá-lo novamente. Deu-me vontade de ser grossa com as pessoas, de esquecer essa coisa de ter que ser tão educada sempre, fiquei com um desejo de explodir e ser o mais sincera possível, falar tudo o que viesse a mente. Resolvi não ir à aula, passar a tarde vendo televisão e comendo, ficar no computador até tarde falando com quem me desse na telha. Senti falta de dias que deixei passar e de coisas que poderia ter feito. Falta de pessoas que foram embora e não retornaram. Hoje eu percebi que muita gente passou na minha vida, apenas passou, e agora não faço ideia de onde estão, como estão. Percebi que posso desejar com todo meu coração, mas certas pessoas não retornam, certos dias não se repetem, o tempo não volta. E não há nada que eu possa fazer.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Acabou

Quantas vezes você acorda de manhã depois de um sonho maravilhoso, levanta sorridente pensando na pessoa que te alegrou a noite, passa o dia bem humorado esperando encontrar com ela? E aí, num súbito flash de realidade, você infelizmente se lembra de que a pessoa não faz mais parte do seu dia a dia. E pior ainda, não faz mais parte da sua vida. Você se lembra da despedida dela, da maneira repentina na qual ela te deixou. Começa a tocar no seu iPod “tell me that we belong together... i’ll be your crying shoulder, i’ll be love’s suicide…” e dá aquele aperto no peito. Por que chegamos a esse ponto? Foi algo tão bom, tão intenso, demorou pra sairmos, nos conhecermos, pra acontecer nosso primeiro beijo. Demorou pra criar confiança, intimidade, sentimento. E de um dia pro outro acabou. Você, simplesmente, não é a mesma pessoa que eu conheci meses atrás. Não foi por essa pessoa que eu me apaixonei. Você se atualizou nesse mundo moderno, mas eu me acostumei com sua versão velha. Você que dizia sempre que nada acontece de uma hora pra outra, ninguém começa a namorar de um dia pro outro, não funciona assim. Então por que deixou nosso mundo rachar aos pouquinhos e não ligou pra isso? Por que não teve o menor trabalho de consertar essa rachadura? Deixou crescer e aumentar... Então pensando bem, não foi tão repentino assim. Você nos assistia acabar aos poucos. As brigas, os gritos, o orgulho, os ciúmes. Você deixou acontecer. E eu, apaixonada, cegamente permiti que você nos levasse ao melhor caminho. E aqui estamos nós, parados no fim do caminho, tomando agora rumos separados, e me pergunto se fiz a escolha certa lá trás, numa encruzilhada, quando você mandou irmos para a direita. Deveríamos ter ido por outra estrada, qualquer outra, mas não essa. Não essa que nos trouxe a nada, ao fim. Mas lamentar-me não vai te trazer de volta. Lamentar-me só vai fazer o martírio que sinto pior. Seguro o celular contra o peito, apertando-o. Fecho os olhos e vejo você fazendo o mesmo, segurando-se para não ligar, para não ouvir minha voz. Lembro-me da sua e me arrepio. Quanto tempo faz? Que não nos vemos, não nos falamos? A dor da saudade é tanta que chega a ser pior do que qualquer dor física. Recordo-me daquela tarde que passamos num parque, correndo, rindo, nos divertindo. Dos seus beijos que, apesar da distância e do tempo, ainda parecem tão recentes. Sinto-o segurando minha cintura e apertando-a contra a sua e de me olhar profundamente nos olhos, como se pudesse enxergar minha alma. Lembro também daquele nosso jantar, num lugar todo refinado e com gente certinha demais, e nós ríamos disso. Ríamos dos bons modos das pessoas e do jeito que todas pareciam metidas e mimadas demais. Como poderia esquecer o dia dos namorados, que você me levou a praia à noite, onde vi o mais belo luar da minha vida. Onde vi o mais belo olhar da minha vida. Onde vi, ao olhar para o lado, o amor da minha vida. E não queria que aquela noite jamais acabasse. Mas acabou. Não só a noite, como todo o resto. Tudo o que construímos, absolutamente tudo, desfeito da noite pro dia. Como um castelo de areia grande e bonito, todo detalhado e enfeitado, digno do primeiro lugar se entrasse numa competição. E aí alguém vem e chuta o castelo. Desmorona. Destrói. E por mais que as palavras marcantes e dolorosas que você dirigiu a mim ainda estejam ecoando na minha mente, devo agradecê-lo. Pelo que me ensinou e ajudou. Pelos momentos, pelos sentimentos, pelo amadurecimento. Se não houvesse tanta coisa boa eu não sentiria essa falta que esmaga o peito. Sinto falta das horas de conversas no computador ou no seu carro. Do jeito que você parecia inteligente debatendo qualquer assunto com a minha mãe sentado no sofá da minha sala. Sinto falta do seu vício por futebol e sua mania se mexer no cabelo. Não quero que depois desse tempo fiquem apenas os momentos ruins. Quero lembrar-me de você como uma parte boa da minha história, um orgulho. Desculpe por tudo que a causei a você. Mas acabou. Feliz ou infelizmente. E nada nessa vida é pra sempre, exceto as mudanças. E o amor. Ah, maldito amor...


P.s.: texto sobre término pra menina do formspring. beijos!

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Insônia


Agora, nesse exato momento, eu queria seu colo. Queria que você me deixasse agir feito uma mulher e depois chorar feito uma criança. Queria segurar na sua mão e senti-la afagando a minha devagarzinho. Queria seu abraço, suas palavras de consolo, seus argumentos, suas infinitas explicações. Porque você repete, repete, repete e eu continuo sem entender. Conformo-me momentaneamente apenas por estar ali com você, mas quando a distância de mim te separa e bate a saudade, eu esqueço tudo que foi dito a mim, não me importo com os porquês e os motivos, continuo te culpando por ser tão ocupado. Você vem de novo e me explica, se desculpa, me encara. Encara-me nos olhos, sem medo, sem pretensões. Não sei o que pensa, não sei nem o que pensar. Beijo-te, te seguro, não pretendo te largar. Mas você tem sempre que ir, não pode nunca ficar. Não sei mais ler nas entrelinhas, era tão divertido no começo, mas tornou-se complicado demais. Não me surpreenderia se, ao me deixar, fosse bater na porta de outro alguém. Fosse dar as mesmas explicações, o mesmo afago na mão. Não me surpreenderia se essa outra pessoa fosse perdidamente apaixonada por você e aceitasse ser sua melhor amiga e viver nas condições por você impostas. Nunca sei se, quando não pode estar comigo, você não está com ela. Se tivesse que escolher alguém, certamente a escolheria. Mais velha, mais madura, mais independente. Mas não tem que escolher ninguém, sabe jogar, sabe enrolar. Não me surpreenderia se aparecesse namorando de um dia pra outro. Não seria novidade ouvir-te dizer que gosta de mim, mas que inúmeras coisas nos impossibilitam de ficar juntos. Ah, ouvi essa história várias vezes de você. E tudo aquilo que parecia tão novo e inesperado foi tornando-se cada vez mais morto e apagado. Você não me liga mais e quando atende meus telefonemas sua voz não transmite mais animação. E eu sei disso tudo, eu enxergo perfeitamente bem. Vejo que você não sente minha falta e que tem outras na sua vida. Mas eu penso “hoje vai ser o último dia, deixe-me tirar a sua última lasquinha, última lembrança, amanhã eu lido com a dor, amanhã eu penso eu te esquecer, mas deixa-me aproveitar hoje pela última vez”. E chega o amanhã, e eu quero mais. Busco-te, insegura. Precisando, cada vez, mais de você. Exigindo algo que não poderia, querendo o que não deveria. Sentimento demais pra pouco tempo, pra uma pessoa só. Sentimento demais pra quem não merece, pro que não é recíproco. E esses textos que não tem mais nexo, não queria escrevê-los para você, não queria de verdade. Mas quando busco inspiração só vem você. Você, você, você. Vício? Que seja. Mas todo vício faz mal. Fique longe de mim, mantenha suas mentiras afastadas. Deixe-me respirar algo que não seja somente você, deixe-me ver algo além do que você quer que eu veja. Permita-me viver. Porque, todo esse tempo, enquanto eu me culpava frequentemente por não abrir os olhos, na verdade eles estavam abertos, mas você pairava na minha frente, com a leve intenção de não me deixar ver mais nada, só você. Hoje, só vejo você. Vejo aonde não tem, vejo em todo lugar. Tudo tem seu jeito, tem seu cheiro. Mas não me chame de maluca. Você tem parcialmente culpa nessa história, nega sentimentos enquanto os sente arder no peito. Nega o ciúme enquanto ele o corrói e enraivece. Dá-me um pouco, deixe-me provar desses sentimentos. Deixa eu me sentir amada por você, desejada. Eu vejo seus olhos brilharem quando me vê e ficarem foscos quando me assiste ir embora. Esse muro vai desmoronar uma hora, ninguém aguenta pra sempre. Essa sua barreira tão gigante e reforçada tem defeitos, pequenas entradas, basta achá-las. Você as faz propositalmente, para que a pessoa certa a perfure, invada. Não tenho paciência para seus joguinhos. Vou explodir sua barreira. Olha no meu olho e diz que não quer. Olha no fundo dos meus olhos e nega a vontade de me beijar. Vai, nega. Novidade nenhuma. Não me surpreenderia se você o fizesse. Acredite, as pessoas não sabem como são felizes até tropeçarem na tristeza. Não sabem dar valor, e só percebem a falta que alguém faz depois que perde. Mas você é diferente do resto das pessoas. Suas palavras, seu jeito de sentir. Martirizo-me por gostar tanto de você. Esse nó na minha garganta que me sufoca e me impede de falar tanta coisa, você o causa. Você é causa de tudo. Chega. Chega de você. Quero festa, quero gente. Do que adianta dar exclusividade se não passo de mais uma? Que seja. Faça como quiser. Mas, antes de tudo, deixe-me esclarecer uma coisa: estou enlouquecendo. Por você, por sua causa, por causa do resto. Não sei mais o que escrevo, o que penso. A insônia me trouxe até aqui, a terceira noite sem conseguir pregar os olhos. Extremamente cansada e sem a mínima ideia do que quero expressar. Mas tento. Fico falando mal e criticando, tentando colocar defeito em você e impor minhas vontades. Tento mostrar-te o quanto eu sofro com você. Ou o quanto eu morro parcialmente sem você. Na verdade, o que eu quero mesmo agora, 1:54 da madrugada, é fugir de casa e ir te assistir dormir. É te contar o quanto eu adoro seu sorriso ou seu jeito estranho de sorrir. O quanto eu adoro seus dentes alinhados perfeitamente brancos. A vontade de passar a ponta dos dedos na marca que as espinhas deixaram no seu rosto e depois percorrer com eles pelo resto do corpo. Queria puxar sua coberta e pular na sua cama, fazer a maior bagunça possível, te acordar e gritar “ei, será que você não consegue me ver? Não sou tão pequena assim”. Queria, então, que você sorrisse e me abraçasse forte, uma mão na minha cintura e a outra acariciando meus cabelos. Queria bagunçar, além da sua cama, seu cabelo também. Deixar suas roupas amassadas e sua casa uma desordem. Fazer com você e com tudo que lhe pertence exatamente aquilo que você faz com meu coração. Brinca, bagunça, desordena, confunde, mistura. Não liga. Coloca tudo no lugar com sua grosseria repentina, diária, adorável. Pare de ser assim adorável. Eu odeio isso. Odeio porque você é assim com todas, todas são apaixonadas por você, e sempre sobro eu. Não é justo, não é! Vem falar comigo hoje, tá? Não esquece, estou esperando. 02:02, estou pensando em você. Convida-me pra sair fim de semana. Insiste. Irrita-me do jeito que só você sabe até me convencer de não ir naquela festa que eu paguei caro pelo ingresso só pra desperdiçar umas horinhas com você jogando conversa fora no seu apartamento. Fala o que quiser, prometo que hoje não reclamo da sua grosseria. Quando eu finalmente aceitar, me busca em casa e debocha da minha roupa quando eu entrar no seu carro. Faça qualquer comentário inútil sobre meu cabelo ou minhas olheiras. Ria, coloque suas músicas estranhas que por algum motivo mais estranho ainda eu sei cantar. Cante, enquanto dirige e me olha rindo esperando que eu cante junto. E aí pare o carro em qualquer parte de uma rua qualquer só pra rir mais um pouquinho da minha irritação e me puxa pra dar um beijo. Um beijo que, quando mal o percebo, você já me largou e está dirigindo de novo. Deixe-me encantada e suspirando como sempre, viajando nos meus próprios pensamentos. Diga que estou estranha e mais chata do que normalmente, por mais que pareça impossível. Diga que sentia falta desse meu jeito irritado e de me mandar falar baixo. Dê-me aquela lambida nojenta na bochecha que você sabe que eu odeio. Novamente, me puxe para o seu colo e, ainda rindo, beije meus lábios suavemente e os pressione cada vez mais forte. Faça eu me apaixonar mais uma vez, como faz todo dia. Droga, eu gosto de você! E tem como não gostar?